Estudos recentes apontam que uma nova compreensão do lipedema, com destaque para o papel central da microcirculação, pode transformar o futuro do diagnóstico e do tratamento da doença
Mesmo que sintomas, tratamentos e causas já sejam relativamente conhecidos, o lipedema ainda permanece um campo em constante investigação. E, nesse cenário, quanto mais se fala sobre a doença, melhor. Em conversa com a Dra. Simone Jardim, especialista em saúde vascular, reunimos algumas das pesquisas mais recentes que vêm ampliando a compreensão fisiopatológica da condição e abrindo novas perspectivas terapêuticas.

O primeiro deles é o papel central da microcirculação. “Estudos recentes sugerem que alterações nos pequenos vasos – os capilares – podem representar o evento inicial da doença. A chamada microangiopatia passa, assim, a ser compreendida não como consequência, mas como possível gatilho do processo patológico”, conta.
De acordo com ela, esse conceito ganha força diante da identificação de marcadores vasculares específicos. “Níveis elevados de VEGF-C estão associados ao aumento da permeabilidade vascular, favorecendo o extravasamento de líquidos, o edema tecidual e o recrutamento de células inflamatórias. Paralelamente, observa-se uma redução significativa de Tie2, proteína essencial para a estabilidade e integridade dos vasos”, explica.
Como resultado, forma-se um ambiente vascular mais frágil e permeável, que contribui para manifestações clínicas típicas, como dor, hematomas e edema persistente.“ Importante ressaltar que esse padrão diferencia o lipedema do linfedema, uma vez que a alteração primária não parece residir no sistema linfático, mas, sim, na microcirculação sanguínea”, diz a especialista.
Diante disso, alguns eixos principais têm sido estudados para esclarecer a base da formação e da perpetuação do acúmulo gorduroso relacionado ao lipedema. A seguir, destacam-se avanços recentes envolvendo aspectos hormonais, genéticos e inflamatórios:
O eixo hormonal: caveolina e estrógeno
Segundo Dra Simone Jardim, entre os mecanismos mais instigantes recentemente descritos está a interação entre a caveolina-1 (CAV1) e o receptor de estrógeno alfa (ERα). “Em condições fisiológicas, a CAV1 regula de forma precisa a ativação do ERα. No lipedema, entretanto, essa regulação se perde. O receptor estrogênico passa a permanecer continuamente ativado, estimulando de forma persistente o crescimento do tecido adiposo”.
Esse circuito hormonal contribui para explicar características marcantes da doença: sua predominância quase exclusiva em mulheres, o surgimento em fases de variação hormonal – como puberdade, gestação e menopausa – e a distribuição característica da gordura nas regiões de glúteos e coxas, onde há maior densidade de receptores estrogênicos.
Genética e epigenética
“A contribuição genética no lipedema vem sendo progressivamente elucidada”, afirma Dra Simone Jardim. De acordo com estudos de associação genômica identificaram variantes relacionadas à angiogênese (VEGFA) e à distribuição de gordura corporal (GRB14-COBLL1), reforçando a conexão entre genética, tecido adiposo e sistema vascular.
Além disso, a epigenética — que regula como os genes são ativados ao longo da vida — vem ganhando destaque tanto no diagnóstico, como nos futuros tratamentos. “Um dos principais achados recentes envolve o gene AKT1, associado ao metabolismo celular, produção de energia e equilíbrio oxidativo”, comenta.
Alterações nesse gene podem influenciar diretamente a evolução da doença e, no futuro, servir como biomarcador ou alvo terapêutico. “Esse achado não apenas aprofunda a compreensão da fisiopatologia, como também abre caminho para o desenvolvimento de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais precisas”, observa.
Inflamação
Diferente da obesidade, o lipedema apresenta um padrão inflamatório particular, caracterizado por uma inflamação crônica de baixo grau que, embora sutil do ponto de vista sistêmico, exerce impacto direto sobre o comportamento do tecido adiposo, contribuindo para sua expansão e para a persistência dos sintomas ao longo dos anos. “Curiosamente, muitas pacientes apresentam um perfil metabólico aparentemente mais favorável em relação ao controle glicêmico, mas com alterações importantes em colesterol, marcadores inflamatórios e estresse oxidativo — um padrão que reforça a singularidade da doença, diferentemente da obesidade convencional”, diz.
Onde queremos chegar no tratamento do lipedema?
As diretrizes atuais (consenso Delphi da Lipedema World Alliance -2026) recomendam uma abordagem inicial conservadora e multidisciplinar, incluindo ajustes dietéticos, terapia compressiva, drenagem linfática, exercícios de baixo impacto — especialmente em meio aquático — e cuidados com a pele.
Segundo Dra Simone Jardim, a lipoaspiração com preservação linfática permanece como opção para casos selecionados, sendo fundamental a avaliação e o tratamento concomitante da insuficiência venosa (varizes), quando presente.
“Esse cuidado é essencial para otimizar resultados e reduzir o risco de sangramentos e hematomas”, explica.
Além disso, no horizonte terapêutico, surgem estratégias promissoras, já em uso em outros contextos, como os agonistas de GLP-1 (tirzepatida, semaglutida, orforglipron), com potencial efeito sobre inflamação, metabolismo e comportamento do adipócito. Apesar do fenômeno das canetas, é importante reforçar que ainda são necessários estudos específicos para entender sua real atuação no tecido lipedematoso.
Por fim, o lipedema é uma condição complexa, que envolve a interação entre sistema vascular, hormonal, imunológico e genético. “Essa nova leitura não apenas amplia a compreensão da doença, como também redefine o caminho terapêutico — tornando-o mais individualizado, mais preciso e, sobretudo, mais alinhado à biologia única de cada paciente”.
Referencias Bibliograficas
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